Quando se fala em creators no Brasil, o nome do jogo costuma ser “agência”. Você contrata, você paga, você recebe serviço. Mas fora do eixo Rio-São Paulo cresce outro modelo, mais antigo do que parece: o coletivo. Um grupo de creators se junta sem contrato formal, divide pauta, divide marca, divide grana. E, surpreendentemente, funciona.
O que é um coletivo, na prática
Em Belém, conversamos com um coletivo de seis creators que cobre cultura alimentar amazônica. Ninguém é dono. As decisões vão pra votação num grupo. Os ganhos de cada campanha são divididos por regra combinada no começo do mês. Não há CNPJ, há palavra.
“A gente não é agência porque agência escolhe cliente. Coletivo escolhe pauta. A diferença é essa, e ela muda tudo.”
Por que cresceu fora do eixo
- Custo. Sem agência no meio, o coletivo consegue cobrar menos e ainda assim ganhar mais por pessoa.
- Identidade regional. Marcas locais preferem creators que falam a língua do lugar.
- Confiança. Em cidade pequena, reputação vale mais que contrato.
O caso de Fortaleza
Em Fortaleza, um coletivo de oito creators começou fazendo humor regional em vídeo curto. Em dois anos, virou referência para o varejo local. Hoje atendem padaria, loja de moda praiana e até um concessionário. O formato é o mesmo: pauta coletiva, divisão por cabe, ninguém contratado.
O limite do modelo
Não é tudo flores. Coletivos dependem de confiança pessoal — quando alguém sai ou briga, o grupo se desestabiliza. Sem CNPJ, fica difícil fechar contrato grande com marca internacional. E a divisão de grana, mesmo com regra, sempre gera atrito.
Recife entra na conversa
Em Recife, encontramos um coletivo de quatro creators que mistura humor, gastronomia e crítica de preço de supermercado. O formato surgiu durante a pandemia e permaneceu porque funcionou: cada um grava em casa, edita no celular, publica em canal próprio e reposta no perfil do coletivo quando a pauta é conjunta. Marcas locais pagam valor fixo por mês — não por vídeo — o que reduz negociação e aumenta previsibilidade.
O diferencial, segundo a integrante mais antiga, é «não competir por view dentro do grupo». Cada creator mantém audiência própria; o coletivo só aparece quando faz sentido para todos. Isso evita o clássico problema de agência pequena: estrela que leva a conta embora.
O que as marcas enxergam
Conversamos com duas marcas regionais — uma de moda praiana cearense, outra de condimento amazônico — que trocaram agência de SP por coletivo local. Motivo citado: «entendem o sotaque». Não é romanticismo; é taxa de conversão. Campanha piloto com coletivo de Fortaleza entregou engajamento 2,3 vezes maior que campanha anterior com influencer individual contratado por CPM, segundo dado compartilhado pela marca (não auditado por nós, mas coerente com outras conversas).
Mas o ponto é: o modelo existe, cresce, e está ditando o tom em cidades onde a agência tradicional não chega. Quem quiser entender o creator economy brasileiro em 2026 precisa olhar pra fora do eixo. E olhar pra dentro do coletivo.